Retorno
Deixei a casa que antes me abrigava,
no cálido silêncio do passado,
o branco dos lençóis, o verde dos jardins,
o cheiro bom de café, em horas matinais…
Deixei as sombras das gentis figuras
penduradas no céu da minha infância,
constelações e sonhos, estrelas e galáxias
noites e dias, luas, madrugadas…
Deixei os mares e navios inventados,
as viagens que fiz pelo mundo infinito,
das janelas aflitas do meu quarto,
na esperança de um dia partir afinal…
E hoje estou aqui, neste mundo de sombras,
os pés marcados de chão, de dor e morte,
nas ruínas do que fui, nas estradas sem sol,
cansado de partir, ansioso por voltar…
Quem sabe, ainda exista a mesma casa,
em lençóis e jardins, em silêncios e sonhos,
e eu possa chegar, me sentar na cozinha,
tomar café, falar de amor, ser menino outra vez…
Havia um poema de um grande amigo que já partiu para o Infinito, Augusto Severo Neto, que aprendi a admirar quando aqui estive, em Natal, entre 1973 e 1975. Tenho certeza de que muitos dos meus amigos também se debruçarão sobre essa bela Balada, que abaixo transcrevo, com muita emoção. Meu “Retorno” é outra leitura, do mesmo tema. Segue-se o poema do meu saudoso amigo:
BALADA DAQUELA CASA
Augusto Severo Neto
Era uma casa sozinha,
sem gritos, sem gargalhadas,
sem vozes dentro das salas,
sem louças batendo louças,
sem passos pelas escadas.
Havia um cheiro abafado,
um cheiro assim bolorento,
talvez por falta de vento,
talvez por falta de luz.
As janelas quando abertas
gritavam tintas quebradas
e as portas estavam coladas
mais ainda que as janelas,
que para abrir uma delas
fiquei com as mãos machucadas
cheias de manchas azuis.
Mas a porta foi aberta
e uma janela também.
O vento entrou por elas,
eu entrei atrás do vento,
olhei por todos os lados,
procurei quartos e salas.
A casa estava deserta,
lá não havia ninguém.
O vento que entrou comigo,
decerto um vento menino,
brincou com um jornal antigo,
folheou velhas revistas
atiradas nas cadeiras,
soprou poeira dos móveis,
fez redemoinho no chão.
Talvez que por um milagre
o relógio trabalhava
e o seu batido se ouvia
por toda parte da casa.
A moldura de silêncio
que circundava as pancadas
uniformes, compassadas,
despertou-me uma pergunta:
como nós, aquela casa
não teria um coração?
Não sei, porém eu sentia
que qualquer cousa pulsava,
qualquer cousa acompanhava
o sangue nas minhas veias.
Perguntei-me: que seria?
“Junto de mim não há nada,
a casa estava fechada,
os lustres cheios de teias,
os móveis empoeirados
há muito não vem ninguém.
E esse algo pulsando?
Talvez eu estivesse certo
quando, há pouco, pensava
que os batidos que escutava
nasciam do coração
que essa velha casa tem”.
Era uma casa sozinha,
sem gritos, sem gargalhadas,
sem vozes dentro das salas,
sem louças batendo louças,
sem passos pelas escadas.
Era uma casa deserta,
Lá não havia ninguém.
In Sinfonia do Tempo – Coleção Ferreira Itajubá 1959
Pela transcrição, onde estiver, obrigado amigo Augusto Severo Neto!
Natal, 22 de março de 2014.