Hoje, quero publicar aqui um poema escrito a 7 de agosto de 1974.
Vi quando trouxeram a menina da sala de parto, logo depois de nascer. A enfermeira a segurava nas mãos suspensas, como uma oferta preciosa ao mundo. Fiquei ali, esperando que a pusessem no berçário. Através da vitrine, podia agora examiná-la em detalhe.
Era uma viajante do espaço sideral, que pousava na terra. Um raio de alegria que descia ao berço. Olhei-a com ternura. Que terei pensado? Que terei imaginado, naquele momento, penetrando em espírito o setor reservado, rompendo o vidro transparente, beijando-a, tão frágil?
O fato é que fui para casa em seguida. A praça barulhenta, a manhã festiva, cheia de sol. Procurei interpretar o que sentia…
E escrevi este poema:
Neste dia de sol você nasceu.
Por um mundo melhor você nasceu.
Por um tempo sem dor você nasceu.
Por um gesto de amor você nasceu.
Por uma casa, por uma esteira, por um prato,
por uma luz de vela acesa,
por tudo isso que faz os homens serem homens
de carne e osso e de mãos estendidas,
no abraço e no perdão,
por tudo isso que faz as pessoas se encontrarem,
se amarem, se terem juntas, queridas,
você nasceu…
Ana,
alegria de minha vida!
Momento eterno de minha contingência
e de minha procura!
Só, neste mundo de Deus,
meus passos ao vento levantam do chão
a poeira dos caminhos…
Eu sou o menino teu pai, teu amigo irmão,
aquele que te amava
antes mesmo de toda tua vinda,
antes mesmo do antes e do antes…
No pólen, na névoa,
na margem de toda humana busca,
nos silêncios em que não te encontrava,
nem te sonhava,
nem te dizia,
mas em que eu sabia da tua respiração profunda,
palpitando menina, Ana, filha,
em cada célula minha, em cada cromossomo,
como uma certeza infinita,
que hoje se desvenda.
Sempre disse, nos anos que se seguiram, que tinha sido profeta nesse poema. Creio até que, para além das palavras e dos versos, transcendendo a toda expressão ou modo de dizer as coisas, existe uma verdade que às vezes brota, com muita força, em nossa alma. Talvez não se deva chamar isso de poesia, mas, certamente, não se pode escondê-la.
Lucimar.
Natal, 31 de março de 2014.