Pássaro ferido

Homenagem a meu saudoso filho Marcelo Padilha Luciano de Oliveira

Um dia, eu iniciara um poema…

Foi o tempo que passou
foi a vida que passou
foi a morte que passou…
Tão perto a morte passou…

A tarde era fria, a tarde era triste, a tarde era feia
e eu tão sozinho na tarde!

Como lá longe um grito, longe um grito,
grito, grito, grito, grito, grito, grito,
ainda um grito.

Mas era tudo uma dor, um silêncio,
uma vontade de sonho…
E todos buscavam na tarde
um momento de sonho…
E havia tudo em todos e todos tinham tudo…
E eu tinha tudo e todos:
tinha, tinha, tinha, tinha, tinha, tinha.

Marcelo entrou na sala. Correndo, a criança de cinco anos rompia o silêncio e a concentração que me envolviam. Havia um raio de sol na janela, aberta de par em par. Seus cabelos ficaram momentaneamente louros, do sol impertinente.

Não, não era bem assim.
Depois um pássaro, uma criança, um momento,
tenho certeza: pássaro.

Criança, música, janela, estava tudo aberto.
O vento soprou seus cabelos,
o sol bateu no chão, como um gesto.

Ali ficamos os dois, a criança-pássaro e eu. Num átimo. Numa janela. O vento nos cabelos. O sol no chão.

E foi-se o sol, na tarde, foi-se embora,
nunca mais o momento passou, foi-se embora,
o momento ficou, foi-se embora.

Depois a criança vestida de sol,
vestida de sonho, vestida de vida,
e eu tão-nu, tão-nu, tão-nu, tão-nu, tão-nu.

Que poderia restar do pai ressuscitado? Que poderia restar da dor transfigurada?

E, de repente…
Não, não foi de repente.
Eu me nasci do fundo das tristezas da tarde
e me fiz leve, leve, leve
como uma lágrima,
e me chorei (baixinho) fundamente,
e me parti no peito (dentro do peito):
menino, sol, silêncio, dor, deserto,
pássaro ferido.

E eu não sabia, ah eu não sabia, então, que este era um poema premonitório, pois os anjos falam-nos por enigmas, não por sinais perfeitos, de leitura fácil.

Marcelo veio a falecer a 18 de abril de 1998, preso à bomba de sucção da piscina de crianças do América, na Rua Campos Sales, Rio de Janeiro, num sábado comum, quando se divertia com a família. Logo ele, mergulhador profissional, campeão paulista de natação aos 14 anos, chamado a nadar pelo Flamengo em 1981, quando voltamos de São José dos Campos!

Ele deixou quatro filhos: Ígor (então 12 anos, hoje 27); Isadora (então 10, hoje 25); Marcela (então um ano e meio, hoje 17) e Fernanda (que nasceu quatro meses depois de seu falecimento, hoje 15 anos). Ele é avô do filho da Isadora, Guilherme, 7 anos, que obviamente não chegou a conhecer.

Surpresas da vida!

Lucimar.
Natal, noite de sábado, 5 de abril de 2014.

Na primeira foto abaixo, os quatro filhos do Marcelo, ladeados por Mariana e Thaís, filhas da Ana, minha filha.

Na segunda, estão presentes também a primeira mulher, Ângela, e a segunda, Kathianne, além das mesmas pessoas da primeira fotografia.

Na última, o Marcelo com 8 anos.

 

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Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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