Sonho dourado

Amigos:

Vou contar um segredo: muitas vezes começo a compor uma redondilha e guardo entre os projetos. Há pouco peguei um antigo projeto e trabalhei a métrica dos versos – redondilha maior, portanto, versos de sete sílabas métricas – em estrofes de oito versos – octetos – cada uma das estrofes com as rimas A-B-A-B-A-B-A-B.

Esse modo de versejar é muito antigo, vem de tempos imemoriais, e, no Brasil, é muito comum entre os cantadores nordestinos. Eles devem ter herdado esta musicalidade poética dos antigos colonizadores portugueses, que já a empregavam nas cantigas da Idade Média. Quando criança, costumava escutar meu pai declamando poesia de cordel assim construída. 

Acabo de trabalhar um projeto e produzir a seguinte redondilha:

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Sonho Dourado

Um belo desenho em rendas, 
sobre o papel, me seduz, 
me lembra das velhas lendas 
contadas à meia-luz… 
Histórias dessas fazendas
do meu café com cuscuz,
que ficaram nas calendas
num poema que compus…

Do outro lado, a aquarela, 
retratando a flor de lis
e, no espaço da janela, 
a beira-rio e o céu gris.
Mas que ilusão era aquela
que o meu destino não quis
assumir como novela
com um doce final feliz… 

Ao caminhar, fui lembrando
da minha luta renhida,
vendo andorinhas em bando, 
como quem está de partida… 
Nas mil estradas que eu ando
desta terra tão querida
os sonhos meus vou deixando
pelos cantos, pela vida…

Um sentimento de morte,
olhando as aves, me invade
afastando a boa sorte
com jeito de novidade:
Se vêm do sul, vão pro norte,
trazendo a dor da saudade 
as asas batendo forte, 
sobre as casas da cidade… 

Eu pensava, em meu anseio, 
o que dizer neste agora 
a tal mulher, cujo seio
me acolheu em boa hora?
A ela, que aqui não veio
e, ao contrário, foi-se embora,
botar carta no correio
ou jogar a carta fora?

O que dizer poderia 
que lhe aplacasse a tristeza, 
que lhe trouxesse alegria, 
que lhe deixasse a alma acesa? 
Quem sabe se ela, algum dia,
o vinho e o pão sobre a mesa,
meu amor partilharia,
com gestos de uma princesa?

E o que me vinha ao desejo 
era dizer-lhe um carinho, 
oferecer-lhe o meu beijo, 
e lhe falar bem baixinho…
É desse modo que eu vejo
que se faz o melhor vinho,
aproveitando esse ensejo
pra construir nosso ninho…

Mas então fiquei calado, 
não consegui nem falar, 
permaneci nesse estado, 
como um barco a navegar… 
Até que disse, cansado,
cansado de naufragar,
venha ficar de meu lado,
viveremos junto ao mar… 

Vamos morar nesta terra, 
Em qualquer lugar que for, 
seja na paz ou na guerra
viveremos só de amor!
Mais vale o bem de quem erra
do que uma vida sem cor,
o talento não se enterra,
só quem usa tem valor!

Acabou o meu reinado,
portanto é melhor ficar 
aqui sozinho, parado, 
esquecido, junto ao mar, 
deixando tudo de lado, 
não querendo mais sonhar, 
porque este sonho dourado 
é capaz de me matar…

Lucimar.
Natal, 6 de abril de 2014.

Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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