Sou do mar

ImagemSempre me encantei pelo Mar. Não apenas como espaço profissional, mas como elemento da natureza, imenso e belo. Algum tempo atrás publiquei na Revista Marítima Brasileira o artigo “800 anos de poesia do mar em língua portuguesa”, trazendo à baila desde as cantigas marinhas ou barcarolas, do século XII, na região do Entre Douro e Minho, Portugal, passando por Camões, nos Lusíadas, e Fernando Pessoa, na Ode Marítima, até o grande poema de Cecília Meireles, “Mar Absoluto”. Vários dos meus poemas visitam esse tema: o Mar. Hoje, transcrevo este:

Sou do Mar

Este canto triste
que escutei um dia,
eis que ainda persiste,
fere e desafia.

Pois surge em segredo
na margem das águas
e me acende o medo
das antigas mágoas.

Acenar de lenços,
badalar de sinos
em ouvidos tensos,
ventos peregrinos…

Ao seguir derrotas,
meu cantar dedilho,
sobre as tábuas mortas
deste tombadilho.

Eu, que sou marujo,
eu, que sou do mar.

Sou vento que bate,
costumado à luta,
afeito ao combate,
irmão da disputa.

E, se me alimento
de dor, na distância,
devaneio invento,
desde a tenra infância.

Procurei os rastros
da ilusão, do mito,
seguindo mil astros
do meu céu aflito.

Tempestades sérias
enfrentei lá fora,
noutras intempéries
eu me encontro agora.

Eu, que sou marujo,
eu, que sou do mar.

Quem foge, quem teme
essas ondas belas,
não comanda o leme
de naus, caravelas.

Pois agora escuto,
entre gritos roucos,
um canto de luto
de fantasmas loucos.

Minhas mãos vazias,
de ventos na palma,
toca outras, macias,
que me tangem a alma.

São as mãos da brisa,
leves como a tarde,
pra suar camisa
neste sol que arde.

Eu, que sou marujo,
eu, que sou do mar.

Nada mais me cala,
nem mesmo a saudade,
trouxe nesta mala
minha liberdade.

É o bater do açoite
deste meu degredo,
se contemplo a noite
que chegou mais cedo.

E o meu peito espera
por tal desafio
dessa mulher-fera
da beira do rio…

Chora de agonia
de estupor, exangue,
e aos ventos envia
meu cantar de sangue.

Eu, que sou marujo,
eu, que sou do mar.

Lucimar.
Natal, 7 de abril de 2014.

Este poema foi escrito originalmente para o livro “Estado de Poesia”, publicado em outubro de 2008, mas foi relido e recomposto hoje.

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Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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