O poema de hoje é uma homenagem especial a uma pessoa especial, que eu muito amo, a menina que cuidou da gatinha da história.
Uma gatinha
Passou aqui em casa
um gatinha:
dengosa, silenciosa, cheia de segredos.
Passeava por todo canto em suaves meneios,
alteando o dorso e levantando a cauda.
Parecia um arco de violino a cauda refinada,
desenhando no ar bemóis e sustenidos.
Passou por aqui
a gatinha manhosa,
cheia de silêncios e segredos.
Depois, ficou uns dias na rua, vivendo a vida,
e voltou coquete, experiente, arrepiada:
uma gata-astuta, batuta, quase prostituta.
Nunca mais foi a mesma, a nossa gata,
miando pela casa,
os olhos lânguidos perdidos ao luar.
Um belo dia, foi-se embora.
ninguém soube por que
nem pra onde.
Talvez para o céu dos felinos imortais,
dos plenilúnios e dos novilúnios,
recobrar a inocência primitiva,
que perdeu ali, naquela esquina,
naquele bar, naquela rua.
Lucimar.
Natal, 22 de abril de 2014.
Esta é a história real de uma gata que minha filha mais nova trouxe para casa. Ela fugiu e foi encontrada, mas já tinha sido conquistada pelo mundo vadio. Aconteceu há mais de vinte anos.