Arlequim

Desde sempre admirei, em especial, um soneto de Bocage, cujo sentido profundo, de paixão e vida, me encantava. Transcrevo-o abaixo, para recordação dos amantes da Poesia: 

Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!… Quando a morte à luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Tenho um amigo, que considero irmão – e de “Mano” nos tratamos ambos –, a quem dediquei um soneto, que de algum modo se inspira neste de Bocage.

Arlequim

Procurar a paixão foi sempre uma agonia,
Pois, de tanto fazê-la o pão da minha mesa,
Deixei-me seduzir por encanto e beleza
E esqueci de viver a vida que devia…

Arrastei-me a seus pés, vesti tal fantasia
De palhaço do sonho, arauto da tristeza,
E, arlequim solitário, acabei sem defesa
Cativo da quimera, escravo da alegria…

E, chegando a este chão real, sem falsidade,
Choro a dor de viver em sonho e desperdício
E ter jogado fora a vida e a mocidade…

E, se sinto tão fundo a dor de cada vício,
É que eu sei que essa angústia imensa que me invade
Vem perto do meu fim, e não do meu início.

Lucimar.
Natal, 26 de abril de 2014.

Este soneto foi inicialmente escrito para o livro “Estado de Poesia”, publicado em 2008, mas recebeu hoje alguns retoques.

A foto da máscara, que lembra o arlequim, foi copiada da Internet.

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Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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