Minha casa, meu cais

Para meus amigos, transcrevo hoje uma adaptação do poema que deu origem a meu primeiro livro de memórias, “Minha Casa, Meu Cais”, lançado aqui em Natal, em 1995, na Academia das Artes.

Minha casa, meu cais

Minha casa é meu lugar.
Espaço onde fundeio, como o veleiro na enseada.
Tem jeito de rede,
de varanda, de brisa.
Janelas abertas para o universo,
por onde chega o céu e tudo o mais
que ele contém.

Por onde o sol se derrama, aos borbotões,
em ouro derretido.
E a lua nua amua o trovador
e se desfila ao léu, no céu, o despudor
de seus encantos lassos,
fluindo e refluindo o mar,
na cheia e na vazante dos meus passos!

De onde espio estrelas solitárias
em seu brilho triste,
ardendo em fogo aflito.
E por onde parto e me parto
e me reparto,
para viagens no sempre, no infinito,
da solidão imensa do meu quarto.

Janelas que pendem sobre telhados e abismos,
e rios que correm para o mar sem fim.
Janelas em perspectiva,
onde a alma descansa olhos perdidos,
nas estradas da vida, mundo afora.
Janelas entreabertas, sonolentas,
bocejando abandono.

Minha casa tem silêncios pelos cantos,
que percutem as horas noturnas, como sinos,
marcando o passar do tempo, lá fora.
Porque, em minha casa,
mesmo o tempo é eterno.

Minha casa, meu cais.
Meu segredo, meu descanso.

Para curtir e recurtir
os meus e os teus dias.
Nossos dias.
Não os do passado, mas os de hoje
e de amanhã.

Que sejam como os da colheita,
de quem plantou e trabalhou a terra.

Dias de olhar o campo e ver o trigo maduro,
soprado pelo vento, em ondas.

Dias sem fim, de janelas ao sol,
de peixe frito na brasa, na varanda,
comprado ao pescador, direto, na praia.

Dias de lembranças,
de estender até tarde e falar tanta coisa,
espichando o tempo,
tomando vinho branco devagar.

Dias sem relógio, ouvindo o som do vento,
nós dois na rede, conversando em silêncio,
os filhos já crescidos, pela vida.

Dias, enfim, de não mais ficar longe,
nem partir,
nem fugir,
nem machucar,
as mãos dadas, pelo mundo afora.

Por esses dias, esperei toda a minha vida.

Lucimar.
Natal, 13 de maio de 2014.

A fotografia foi copiada da Internet.Imagem

Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

Deixe um comentário