Noites e noites

O poema de hoje foi escrito em Brasília, DF, em 1987, quando eu lá servia. Ele foi dedicado, à época, a minha esposa Hildette, que faleceu em abril de 2007.

Noites e noites

Eu sei que estive aqui em outro tempo
eram grandes as janelas
e vasto o vento que batia as cortinas de açoites
e noites
e noites…

E lágrimas descendo dos teus olhos
vãos
como pontes e sombras
e noites
e noites…

Eu sei que estas janelas
e estes quadros
e estes livros
faziam desta sala a sala de outro tempo
onde estavas e eu
navegando em silêncio o teu quarto
me feri marinheiro de sonhos
e noites
e noites…

E menino fugi dos teus braços
em árvores e cercas e
cemitérios e desertos
caminhando ou cavalgando
as dunas e os alísios
como ondas de naufrágio
e dorso de antibrisas
e em lagos mergulhei
pra te buscar e te amar
e te matar, de punhais
e de coitos
e noites
e noites…

Eu sei que te conheço de outras eras
quando eras
mais que mulher ou sereia
ou anjo das esferas
menina que descia lágrima em meu peito
e me escorria lúcida de esperas
de ficar e partir
e nunca mais e para sempre
ir, no véu dos tempos,
caos da primitiva tarde
crepúsculo da antecriação
sol de fogo, brasa que se faz
carvão
e noites
e noites
e noites…

Mulher das minhas noites
fera das minhas noites
face branca e seios lívidos
cálice
das minhas noites.

Natal, 24 de maio de 2014.

A imagem que ilustra este poema é uma cópia de “A Noite Estrelada”, de Vincent Van Gogh, obtida na Internet.

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Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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