Hoje quero recordar um poema – que escrevi uns vinte anos atrás – o qual pode ter duas leituras. Fica a critério do leitor escolher: direto, isto é, do primeiro ao último verso, ou, ao contrário, do último para o primeiro. As duas leituras têm sabores ligeiramente diferentes, mas o conjunto é que constitui o poema, propriamente dito. Divirtam-se:
num raio de sol
de pássaro ou
de um beijo, como num pouso
ou ausências nunca saciadas, senão no átimo
presenças,
solidões que juntas se fizessem milagrosamente
árvores, cujas raízes se buscassem na terra,
que se despojam de seus brinquedos mais caros,
fôssemos assim como duas crianças
de sal e sol,
no mar, na praia, no deserto
devagar, sem pressa alguma,
descobríssemos cada palavra, cada silêncio
definitivo,
num abraço fundo, fecundo, louco,
nós
e nossas mãos entrelaçadas,
absolutamente nós dois e o tempo,
e só existíssemos nós dois
na tarde,
um gesto que se dissolvesse infinitamente
e tudo o mais parecesse nada
como num conto de kafka
contudo fossem conscientes
gaivotas, procelárias, albatrozes,
na praia branquíssima:
e os sons surgissem de repente
e o mar tivesse sons
em mim, onde houvesse mar
um sonho azul, a tarde
ou como uma lágrima
tão leve como um sorriso
que permanece longinquamente
no tempo,
uma palavra profunda, um sopro
da minha carne
sobre o mundo
um silêncio que de repente se abateu
como um pouso de pássaro
delicadíssimo
um leve passo delicado…
Natal, 18 de agosto de 2014.
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