O poema de hoje é proibido para menores:
Viajante
Lábios quentes, vermelhos, entreabertos,
Que aos meus juntei num jogo de ternura,
Lábios de mel, de sal, de sol, despertos,
Como a lua no céu em noite escura.
Que eu beijei tantas vezes, fascinado,
Olhos fundos, sentindo o rosto em brasa…
O corpo em fogo ardente, do teu lado,
No silêncio secreto desta casa.
Túrgidos, tensos, pequeninos brotos,
Os seios em botão, doce agonia,
De anseio e de desejo semirrotos,
Erguiam-se num mar, que enlouquecia.
Querendo beijos, implorando o toque,
Só pedindo meus lábios, arquejantes…
Mas eu, sem ter mais força, a teu reboque,
Pra curar teus desejos como dantes.
E era cálido, límpido e macio,
O gosto de tal água cristalina,
A descer-me na boca como um rio,
Puro sabor de seiva feminina.
Língua livre, lambendo-os, sem receios,
Enquanto os acendia em gestos sábios,
Transformava em faróis esses dois seios,
Fontes de luz na noite dos meus lábios.
Os ombros torneados, monumento
Estendido nos braços, sobre a cama,
Molduravam teu corpo, em ritmo lento,
Terno e doce, em que a alma se derrama.
A cintura delgada, a curva mansa,
Ao centro, um vale imenso que desmaia
Continha o peito místico que avança,
Como a onda do mar, batendo à praia.
Minhas mãos percorreram tais distâncias,
Querendo conhecer-te o palpitar,
E, a queimar de agonia e de outras ânsias,
Alçaram voo, enfim, no imenso mar.
Enlaçando teu corpo, em febre ardente,
De paixão e de sonho, como um rei,
Eras fêmea em lençóis e eu ferozmente
Em clarões de luar… me abandonei…
O dorso, lindo, lento, semovente,
De volteios sutis em seus dois lados,
Nas rajadas de vento persistente
Deixa os barcos, no mar, desamparados.
Bastos cabelos, curvas desenhadas,
A cintura delgada por detrás,
Femininas ternuras bem traçadas,
E esse encanto fatal que a carne traz.
Não pude me conter, ao ver-te, ansiosa
E te cobri de beijos, em torrente.
Tu, que eras leve, livre e misteriosa
Mas fugias de mim, precocemente.
A sustentar a fúria dos tornados,
E estertores de horror, vindos da rua,
Sobre os panos da cama, amarfanhados,
Resplandecia aquela deusa nua.
Pernas longas, elásticas e quentes,
Num corpo de mulher, mais que perfeito,
Como raios de sol de tão ardentes,
Restavam soltas, lindas, sobre o leito.
E, no centro, uma flor que reluzia,
Um pequenino corte tremulante
Tinha a delícia augusta da ambrosia,
E esperava a invasão do viajante.
Que dizer desta carne que é tão bela?
Como expressar o que ela mostra e esconde?
O que falar desses mistérios dela?
Onde encontrar o seu segredo, onde?
Pelo cheiro das ostras milenares,
Pelo gosto das algas e das rosas,
Entrando em meu sentido finos ares,
Por narinas ardentes e curiosas.
Pois esperas meu toque e te incendeias,
No tremer embriagante desse espinho:
E se juntam, sem susto, entre candeias,
Meus desejos e os teus num mesmo ninho.
Por isso me perdi na correnteza
Da ânsia que, infinita, o peito invade,
Querendo, sim, que a própria natureza
Ao máximo chegasse de ansiedade.
E eu penetrei, enfim, no teu segredo,
Em tensões repetidas de batalha,
E nós dois cavalgamos, sem ter medo
Nas estrelas de luz que o céu espalha!
Lucimar.
Natal, 8 de setembro de 2014.
Poema escrito em setembro de 2008.
Imagem copiada da Internet.
