Faz algum tempo, foi publicada na Internet a fotografia de um menino negro, em posição fetal, e, a certa distância, um abutre que parece aguardar sua morte. Alguém se referiu a esse tipo de pobreza extrema como se fosse “um câncer social” e comentou: “O câncer é a reprodução desordenada de células”. Refleti, então, sobre a gravidade desse problema, a partir de uma visão cristã, e escrevi o poema abaixo:
Transcendência
Não sou um ser humano, sou um câncer.
Não sou um menino, sou escória.
Não tenho uma alma imortal, um direito civil,
Uma cidadania…
E, por isso, nenhuma expectativa
Me cabe nesta vida.
Cabe-me morrer de fome, no deserto:
Os abutres se alimentarão de mim.
“[…] sou um verme, não um homem,
Riso dos homens e desprezo do povo […]
Cercam-me cães numerosos,
Um bando de malfeitores me envolve,
Como para retalhar minhas mãos e meus pés,
Posso contar meus ossos todos…” (Salmo 22)
Câncer da espécie humana,
Apodreço como um dejeto,
Estiolo como uma flor sem água,
Morro de fome sem qualquer socorro.
Minha morte, porém, há de plantar neste chão
A verdadeira árvore do Amor,
Que salva o mundo do egoísmo
E da destruição.
Um dia, todos conhecerão
O sentido real, a transcendência
Que existe em mim.
Lucimar.
Natal, 13 de outubro de 2014.
