Só quem serviu à Marinha de Guerra ou Mercante – ou a qualquer outra instituição que exija grande ausência de casa – sabe o que é esta ausência.
Longe de casa, o marinheiro mergulha no trabalho, no convés ou na máquina, nas fainas comuns e especiais, no adestramento e na rotina. Mas, quando chega a noite, em seu beliche, ele recorda cada detalhe, cada momento, cada dia de convivência, com mulher e filhos, e a saudade bate. Com muita, muita força. Bem no coração.
É o que eu quero dizer no poema abaixo, que escrevi em 1976, quando servia no Navio Escola “Custódio de Mello”, como instrutor de navegação de guardas-marinha.
Eis o poema:
No meu navio
No meu navio há caminhos
que vão a toda parte e parte alguma.
Há pontes, corredores, tombadilhos e quilhas
abrindo o mar como navalhas,
há milhares de silêncios pervagando vigias
e homens debruçados na tarde
e rostos e mãos e passos,
que se perdem de caminhos imaginários,
que vão a toda parte
e parte alguma.
No meu navio há muita gente
e, de noite, quando baixa o silêncio
e pesa densamente sobre conveses e mastros,
a gente se apequena e se guarda
e se recolhe na saudade imensa
de sua própria casa sonhada
e crianças correm nos corredores
e parques cheios de sol
e praias e ruas surgem inesperadamente
e em algumas centenas de beliches
a noite é como um misterioso e silencioso
jardim,
onde praças e cidades,
esposas e filhos,
irmãos e irmãs e mães e pais
confraternizam
e sorriem e conversam e vivem e amam
e há sempre neles a distância,
há sempre no ar a presença das ausências,
que se ergue imensa e pelo mastro afora
rompe o fundo abismo dos céus estrelados,
das constelações e das galáxias,
mastro infinito e plástico,
noite, dor, prece,
mastro líquido
por onde o mar se esvai,
por onde todas as estrelas e todos os parques
e todas as casas e todas as ruas
sobem, lágrimas, límpidas, lúcidas,
e se fazem estrelas e semeiam a noite
de novos e intermináveis caminhos.
No meu navio, os caminhos de ontem
são os caminhos de hoje e são os caminhos
de amanhã.
O passado, o presente e o futuro
são uma só e mesma saudade,
os dias se cansam de existir e caem trôpegos,
no chão dos camarotes,
nos alojamentos e nos refeitórios.
Há pessoas que passam anteparas,
há anjos guarnecendo praças de caldeiras…
No meu navio,
o ontem é, o amanhã já foi, o agora nunca será.
É sempre o eterno amanhecer das presenças requeridas,
é sempre o eterno cais chegando, a pedra cinza do cais
se aproximando e vindo
ao encontro do costado e, entre eles,
costado e cais,
os abismos, as distâncias, o tempo e o espaço
são apenas o elo, imponderável,
entre sonho e realidade,
entre ser e não ser,
entre tudo e nada.
No meu navio, os caminhos
que me levam ao norte
são caminhos de encontrar você.
Lucimar.
Natal, 26 de outubro de 2014.
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