Recordar é viver

Recordar é viver

Tenho um grande amigo de juventude, aqui de Natal, com quem me correspondo e a quem visito regularmente, o Reginaldo Lima, casado com Olizete, irmã do meu cunhado Hormino Azevedo. Em agosto de 2010, isto é, há mais de quatro anos, quando ainda morava no Rio de Janeiro, recebi dele um e-mail, que transcrevo abaixo:

“Bom dia, Lucimar.

Olizete tinha um tio por parte de pai, Antídio de Azevedo, que se consagrou como poeta. Ocupou uma das cadeiras da Academia Norte-rio-grandense de Letras, por reconhecimento aos seus méritos intelectuais. Pertenceu também à Academia Potiguar de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Antídio, nascido e criado no Seridó, não teve escolaridade regular, segundo relata o filho Max Azevedo, em seu livro ‘Idade Provecta’. Aprendeu a ler com o próprio pai, numa fazenda, às vezes ajudado por um primo, estudando quase sempre à noite, à luz do candeeiro, aproveitando as poucas horas que lhe sobravam, do amanho da terra e do trato com o gado. Recém-chegado a Natal, em 1938, entrara num dos cafés da cidade, para tomar um cafezinho. À sua frente, sentado noutra mesa, “estava um homem mal vestido, pálido, de olhos sanguíneos, com aparência de bêbado e de não haver repousado na noite finda” (tópico de um artigo publicado por Antídio). Percebeu que o homem olhava para ele atentamente e escrevia correntemente por alguns instantes, depois de ter falado com alguém próximo a ele. Em seguida, pediu ao garçom que entregasse ao Antídio a mensagem que acabara de escrever. Tratava-se de um soneto, que veio a ficar, depois, bastante conhecido entre os intelectuais da terra:

SONETO

Meu caro Antonio Antídio de Azevedo,
Alma de santo, coração de esteta,
Você que é nobre e esplêndido poeta
Leia deste soneto o fraco enredo.

Doente, tristonho, eu, um pobre aedo,
Que palmilha do verso a estrada reta,
Sinto no coração ferina seta,
Que a morte me dará, talvez, bem cedo.

Mas, a morte, afinal, pode ser vida,
Pode o corpo voltar à prometida
Forma e colher esplêndidos lauréis…

E assim pensando, para não morrer,
Até meu ordenado aparecer,
Me empreste, tendo juros, dez mil réis.

Damasceno Bezerra.

Este foi, inegavelmente, um dos maiores poetas do Rio Grande do Norte, com grande capacidade para o improviso e de quem Antídio passou a ser grande admirador. Um forte abraço, Reginaldo.”

Mas eu queria mostrar, neste espaço, a resposta que enviei ao Reginaldo, também em forma de soneto:

DAMASCENO E EU

Eu sei que Damasceno é meu irmão,
De triste sina, pois do verso escravo,
Sujeito louco, destemor de bravo,
Que ser Poeta é mais que vocação.

Pois fazer um soneto em supetão
De repente, no golpe, sem conchavo
Só pra pedir de esmola algum centavo
Ao Antídio Azevedo, sem razão?

E lhe digo, de pronto, Reginaldo,
Que um soneto daquele dá mais caldo
Que as antigas histórias do Sertão.

Pois de bonde eu descia pelo Baldo,
Nos tempos do Marista, de Agnaldo,
E agora só passeio de avião!

Rio de Janeiro, 21 de agosto de 2010.

A imagem foi copiada da Internet: margemdois.blogspot.com

PS: Agnaldo, contemporâneo famoso de nosso tempo de alunos do Colégio Marista de Natal. Famoso artista de cinema e cantor.

Lucimar.
Natal, 15 de novembro de 2014.

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Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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