Minha turma de marinha, a Turma Face, desde que surgiu, nos primeiros anos de nossa vida profissional, nunca deixou de reunir-se, sob diversos motivos: aniversariantes do mês, comemoração de 40 anos, 50 anos de entrada, passeios e viagens. Numa dessas reuniões, quando presidia a turma o Notaroberto – Nonô para os íntimos -, no final do ano de 1991, levei este poema e distribuí aos colegas. Trata-se de um questionamento sobre o mistério que nos reúne, tantos e tantos anos, num mesmo espírito, numa só energia, numa só amizade. Aí está o poema:
Sinos do mar
Por que viemos aqui
se não somos muitos, somos apenas
o que restou da quimera
enclausurada, esquiva
do antigamente perdido
das tardes esquecidas?
Por que viemos aqui
encanecidos, fora de moda
de nossos mil caminhos, à espera do milagre
de encontrar o rosto, o sorriso,
o gesto plural, que o tempo sepultou
no chão do nunca-mais?
Por que viemos aqui, de raízes diversas
e casas de luz a lampião e noites indormidas,
passos e caminhos e terras outras e tantas,
para viver, crianças espantadas, o espanto desta hora
que nos recolha ao ventre, ao caos, ao cais
e renasçamos, libertos, no dia original?
Que mágico bater de sinos nos convoca,
hoje tão sós, hoje tão distantes,
a caminhar de volta ao dia da incerteza,
ao começar de tudo, alvorada longínqua,
imberbes assustados, tosquiados cordeiros,
pequenino rebanho sem pastor ou guia?
São os sinos do mar, que tangem de tão longe,
viajando latitudes e longitudes várias,
e os ouvimos hoje, nesta hora em silêncio,
dobradas e singelas, sons crepusculares,
no compasso deste tempo finito/infinito,
para o encontro final dos nossos desencontros.
São dobres de uma esperança jamais desvanecida,
cores de um pôr de sol antigo, na memória da alma,
que fere o coração de imensa nostalgia
e lembra alguma coisa, não se sabe o quê,
perdida em qualquer rua, em qualquer praça,
em qualquer tempo passado, sem retorno.
Sinos do mar: vozes do mar,
canções de abismo e ternura, de saudade e dor,
cansaço de viver na terra e sem destino,
vontade de morrer, de amor, no Mar,
adormecendo em sangue as lembranças mais caras
daquele tempo antigo que nos fez irmãos.
Lucimar
Natal, 15 de novembro de 2014.
A imagem do sino foi copiada da Internet: deniseludwig.blogspot.com
