Houve um tempo em que debatíamos em versos, por e-mail, meu amigo Rocha de Oliveira, colega de profissão, e eu próprio. Destaco aqui alguns trechos de um desses “desafios”. O tema acabou sendo a oposição razão versus coração.
No meio do desafio, em dado momento, mandei ao Rocha estas redondilhas:
Veja, então, querido amigo,
que as ânsias do coração
querem impor seu castigo
às clarezas da razão.
A você, que traz no peito
manicaca de mergulho (*)
com certeza sobra jeito
preparo físico e orgulho.
Pois pra vencer a carência
de senso no dia a dia
não pretere a inteligência,
a precisão de energia.
E essa o amigo tem,
curtida com muito empenho,
e sabe como ninguém
dar machadadas no lenho.
E nós, que somos do mar,
nessa tertúlia sadia,
vamos com gosto saudar
o renascer da poesia!
Lucimar.
Rio de Janeiro, 23 de julho de 2004.
(*) “Manicaca” no jargão naval, significa “ícone de curso profissional”.
Rocha de Oliveira respondeu:
Sent: Friday, July 23, 2004 11:08 PM
Concordo, Mestre Poeta,
com essa tua afirmação
que é melhor ter-se por meta
as ânsias do coração.
Dúvidas também não tenho
de que “il cuore” é teu motor
e afirmo com muito empenho
que viveste pelo amor.
Mas a Razão, com certeza,
também tem o seu lugar,
pois há excesso de vileza
que nos pode machucar!
E quem liga pra ferida?
– o Coração argumenta –
se tantas na tua vida,
arderam como pimenta?
E quem pergunta sou eu:
Dá pra aguentar esse chato,
que para infortúnio meu,
quer fazer parte do ato?
Acho que vou desistir
só restando engenho e arte,
porque se quer insistir
essa “bomba” tem enfarte.
À Razão desculpas peço
pois falta argumentação
é assim que me despeço:
vou tratar do coração.
Hosh (Rocha de Oliveira)
Minha última resposta foi:
Se com o coração converso,
deixo de lado a razão,
pois a raiz do meu verso
emerge do coração.
Sem ele este mundo é nada,
sem amor não há perdão,
só descobre a sua estrada
quem pensa com o coração.
Neste ponto estou contigo
e proponho este refrão:
só é na verdade amigo
quem fala de coração.
É por isso, amigo Rocha,
que esconjuro a solidão:
perde o senso quem debocha
das coisas do coração.
Seu mote peguei no laço
pra cantar minha canção,
me responda se eu não faço
meus versos de coração!
Lucimar.
Rio de Janeiro, 23 de julho de 2004.
Reproduzido em:
Natal, 1º de dezembro de 2014.
Imagem copiada da Internet em: philothanatos.wordpress.com.
