Continuação do desafio (Rocha e Lucimar)

Temos apresentado aqui os “desafios” em versos, entre os membros do grupo “Poenautas”, de velhos homens do mar.

Continuação do desafio (Rocha e Lucimar)

Rocha de Oliveira:

Bem cedo de madrugada,
vagueia meu pensamento,
na praia toda enfeitada
pelos caprichos do vento…

Ando lento e pensativo
entre os destroços que o mar
no seu arfar pulsativo
trouxe para me intrigar.

Sinais de morte e de vida
se espalham pelo lugar,
como a savelha ferida
que o siri não quer largar.

Ou, um pouco mais adiante,
pregos de cobre em madeira
que a tempestade distante
arrancou de uma traineira.

Que dizer dessas pegadas,
que da areia vão pro mar,
se elas começam no nada
como se vindas do ar?

Talvez marcas sorrateiras
que um anjo deixou expostas,
ou minha Clara, matreira,
deixou, andando de costas…

Meu pensamento é disperso
e minha alma um tanto exposta
porque meu apelo em verso
ainda não teve resposta.

Talvez que a pele crestada
com cheiro de maresia
não seja bem adequada
pros salões da poesia…

Penso, também, pode ser…
que mãos que têm tantos calos
em vez de verso escrever
nos cabos têm seus embalos…

Assim eu vou caminhando
na areia seca ou molhada,
onde se acaba encontrando
uma garrafa encalhada.

Já tem limo, é bem selada,
está quase de passagem.
Numa luz esverdeada,
vejo dentro uma mensagem:

Uma mensagem encantada,
contendo na letra posta
de Luz e Mar enfeitada
tão esperada resposta…

Que Netuno é meu padrinho,
que sei de vento e maré
que não sou estranho ao ninho
logo eu, que sou ralé!

O que chegou por escote,
semáfora, rádio, holofote.
chegou de primeira mão,
porque foi de coração.

Minha resposta foi:

Se é cedo ou de madrugada
que o pensamento vagueia,
é na lagoa encantada
que se espelha a lua cheia.

E o vento que, em seu capricho,
enfeitou demais a praia,
também trouxe muito lixo
neste arrebol que desmaia.

O amigo, sim, tem razão
quando fala em morte e vida
pois se de tarde estou são,
de noite estou de partida.

Quem conta com a sorte certa
pode esperar ter surpresa:
no peito a ferida aberta
e faltar pão sobre a mesa.

A tempestade distante,
que destroçou a traineira,
pode chegar neste instante
e acabar com a brincadeira…

Mas, ao falar desses passos
que da areia vão pro mar,
deixo tudo pros seus braços
de marujo a navegar.

Que não comento ou converso
em coisas dessa seara,
não devo empregar meu verso
na história de sua Clara(*).

Toda vez que me deparo
com esse tema, logo empaco,
de perigo tenho faro,
ponho a viola no saco.

Pele crestada, eu lhe digo,
tem valor pra poesia,
cor da luta, ilustre amigo,
é mais que vida vazia.

E que dizer da pujança
das mãos dos calos da Vida?
Estão prontas para a dança
da chegada ou da partida!

Fique certo, amigo Rocha,
que ralé você não é.
não tem favor, não tem cocha
minha palavra de fé.

Marinheiro como poucos,
você marcou seu destino
e não tem ouvidos moucos
para o mar, desde menino.

Por isso, ao findar a luta
quero fazer saudação,
por essa honrada disputa
com você, que é meu irmão!(**)

Pela transcrição,
Lucimar.
Natal, 3 de dezembro de 2014.

A imagem foi copiada da Internet em: berimbrasil.com.br.

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(*) – Eu imaginava que Clara fosse a mulher do Rocha. Como verão na última parte do debate, a ser publicada amanhã, eu estava enganado.
(**) – Pensava eu também que o desafio tinha terminado. Mas o Rocha ainda respondeu e eu mandei, depois, uma tréplica.

A resposta do Rocha e minha tréplica serão publicadas amanhã.

puxada-de-rede

Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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