Os bêbados

Hoje, uma alegoria sobre “os bêbados” (poema de meu próximo livro, de título provisório “Mar-em-mim”).

Os bêbados

Todos os bêbados estavam lúcidos na noite,
porque todos os bêbados sabiam da verdade
e se embebedavam de verdade na verdade.

(No sangue das notícias havia um rastro de vida.)

E se diziam, os bêbados, sorrindo, as coisas
que só eles compreendiam
e iam sós, tão sós, na noite, os bêbados.

De alguma estrela chegava a notícia do tempo,
do muito longe, inexplicável,
e todos eles, os bêbados, perseguiam implacavelmente
a luz já morta nos milênios do espaço,
e tempo-espaço-e-bêbados jaziam flutuantes,
unificados, numa síntese cósmica.

E eis que não era domingo,
e eis que tudo continuava na mesma,
a casa, a rua, a sala de jantar,
o jardim
(jardim?).

E eis que logo nem mais noite havia,
nem estrela, nem tempo, nem espaço,
e tudo se consumia rapidamente, como na morte,
como na vida,
como num sonho, como num transe,
como num gesto, como num beijo…

Na distância infinita da palavra ou do silêncio,
porque todos os bêbados sabiam da verdade,
sabiam da verdade,
sabiam.

Lucimar.
Natal, 14 de janeiro de 2015.

A imagem foi copiada em: estrelasdistantes.wordpress.com.

cosmos1

Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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