Um poema para hoje, tirado do meu próximo livro “Mar em mim”, já no prelo:
Eu te ofereço
Eu te ofereço a dor dos naufrágios sem poesia
a dor dos homens que se debateram inutilmente
na longa noite do mar.
Eu te ofereço o mistério desses barcos que se perderam
na fúria das rebentações
no passar dos furacões
e adormeceram insepultos no fundo dos oceanos.
Eu te ofereço o derradeiro grito
dos marinheiros que pereceram
pensando nos filhos em casa.
Eu te ofereço sobretudo o silêncio desta longa noite
que é como um vazio incomensurável
que se desprende da terra e ecoa pelos séculos:
o silêncio das velas que partiram e nunca mais voltaram
o silêncio das saudades nunca saciadas
o silêncio das mensagens nunca transmitidas.
Mas também te ofereço os abraços daqueles que chegaram
e a palavra daqueles que não sucumbiram.
Também te ofereço o bolsão das velas pandas
no azul das enseadas
e o despertar dos mastros no horizonte das esperas
e o arriar de panos
e o entrar de cabos
e o largar de ferros
e o descer de pranchas
e o sorrir tão largo esse sorrir selvagem
milagroso límpido
do marinheiro.
Eu te ofereço definitivamente esse sorriso:
gerado no ventre dos furacões
crestado no sol dos mormaços
alimentado na dor dos naufrágios.
Essa manhã de paz que vem como uma bênção
do coração do mar e que estremece a terra.
Lucimar.
Natal, 10 de fevereiro de 2015.
