Ano passado, partiu para a Eternidade uma velha amiga, que conheci em Salvador, nos idos de 1966, ainda muito jovem, linda, fraterna e doce.
Poucos dias antes de sua partida inesperada, eu tinha transcrito em minha página do Facebook um poema que a ela dedicara, naqueles tempos heroicos.
Agora o reproduzo aqui, para lembrá-la, com a saudade forte que ela deixou.
“Ah Bahia!
Guy de Larigaudie, em um de seus contos, narra o momento em que, numa terra distante, foi atraído pela beleza de uma nativa.
Montado em seu cavalo, esporeou-o para bem longe, com o propósito de não se deixar seduzir por aquela beleza rara.
Termina por afirmar que, no dia do Juízo Final, se não tiver de sua longa vida o que oferecer a Deus, Justo Juiz, a Ele entregará esse momento, em que não seguiu os apelos do próprio coração.
Anos atrás, conheci uma jovem na Bahia que muito me impressionou. Mas também eu não podia, então, seguir os apelos do coração. E, como já vão muito distantes estes anos, posso revelar aqui um dos poemas (foram vários!) daquela minha renúncia:

quando eu for embora
te deixarei não o meu sorriso
nem a minha tristeza
porém esta láurea conquistada
esta vitória de amor que é ir-me embora.
quando eu for embora
te deixarei não flores
nem lembranças
nem abraços de ternura
nem beijos (mesmo os mais castos e mais puros)
mas esta única e definitiva
vitória de amor que é ir-me embora.
não que eu recuse o amor
não que o despreze
mas sobretudo que o sei alto e nobre e manso e fiel.
sobretudo que o sei belo como a chama que devora
e que devasta e que consome.
quando eu for embora
te deixarei não a lembrança da casa nem dos filhos
que os não temos.
te deixarei não a saudade do mar que me acalenta
pois deserto.
mas a grandeza desse gesto de adeus que dilacera
esta vitória de amor que é ir-me embora.
Lucimar.
Natal, 12 de novembro de 2015.