Minha casa

12605364_1133626273316738_926039100021357276_oMinha casa é meu lugar. Espaço onde fundeio, como o veleiro na enseada. Tem jeito de rede, de varanda, de brisa.

Janelas abertas para o universo, por onde chega o céu e tudo o mais que ele contém.

Por onde o sol se derrama, aos borbotões, em ouro derretido. E a lua nua amua o trovador e se desfila ao léu, no céu, o despudor de seus encantos lassos, fluindo e refluindo o mar, na cheia e na vazante dos meus passos!

De onde espio estrelas solitárias em seu brilho triste, ardendo em fogo aflito. E de onde parto e me parto e me reparto, para viagens no sempre, no infinito, da solidão imensa do meu quarto.

Janelas que pendem sobre telhados e abismos, e rios que correm para o mar sem fim. Janelas em perspectiva, onde a alma descansa olhos perdidos, nas estradas da vida, mundo afora. Janelas cubistas, de traços agudos e oblíquos, cônicos e polimétricos. Janelas entreabertas, sonolentas, bocejando abandono.

Minha casa tem silêncios pelos cantos, que percutem as horas noturnas, como sinos, marcando o passar do tempo, lá fora. Porque, em minha casa, mesmo o tempo é eterno.

Minha casa, meu cais. Meu segredo, meu descanso. Para curtir e recurtir os meus e os teus dias. Nossos dias. Não os do passado, mas os de hoje e de amanhã.

Que sejam como os da colheita, de quem plantou e trabalhou a terra.

Dias de olhar o campo e ver o trigo maduro, soprado pelo vento, em ondas.

Dias sem fim, de janelas ao sol, de peixe frito na brasa, na varanda, comprado ao pescador, direto, na praia.

Dias de lembranças, de estender até tarde e falar tanta coisa, espichando o tempo, tomando vinho branco devagar.

Dias sem relógio, ouvindo o som do vento, nós dois na rede, conversando em silêncio, os filhos já crescidos, pela vida.

Dias, enfim, de não mais ficar longe, nem partir, nem fugir, nem machucar, as mãos dadas, pelo mundo afora.

Por esses dias, esperei toda a minha vida.

Lucimar.
Natal, 19 de janeiro de 2016.

Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

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