Amigos:
Em faina de mudança, velhos papéis renascem. E descubro, entre caixas antigas, amareladas pela passagem dos anos, uma troca de mensagens entre mim e o estimado companheiro Alexandre Tagore, já falecido, quando ambos servíamos na Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar – a Secirm – em Brasília, DF.
Tagore era escritor de talento e estudioso do idioma. Certo dia, envio-lhe um poema que acabara de escrever, para leitura crítica. Sua resposta, que guardei, foi bastante lúcida e precisa, como verão, abaixo.
Sinto hoje saudade de alguma coisa,
de algum tempo,
de alguma rua…
Tenho hoje o medo dentro da alma,
medo antigo, de menino,
de não ter sido
ou não ser nunca…
Quero hoje o gosto de alguma morte,
em sangue, em terra, em pó
e desespero…
Busco hoje o gesto definitivo,
que me apresente, me demonstre,
me explique
a mim mesmo…
Ardo hoje de areias de mil desertos
e passos, e gritos, e canções
e beijos…
Fujo hoje nos vãos de toda esperança,
de todo desejo, de toda inquietude:
homem, sou tão pequeno
que não vejo além das ruas
e tão grande
que me alimento
de eternidades.
Lucimar
18/janeiro/1988
Ao: CMG Lucimar
1. É nisso que dá o açodamento dos vanguardistas. “Soudain, d’um seul coup”, acabaram com o acento diferencial. Com isso, não provocaram grandes transtornos para a linguagem denotativa das matérias jornalísticas, para a correspondência oficial, e mesmo para a prosa lírica descompromissada. Contudo, entravaram a criatividade, o estilo, e a poesia que caracterizam a linguagem conotativa da criação poética. Vejamos:
“quero hoje o gosto de alguma morte,
em sangue, em terra, em pó
e desespero”.
desespero – verbo desesperar ou nome?
2. A repetição de fonemas consecutivos não me parece um descuido. Antes, uma exploração criativa e eufônica. Vejamos:
“Quero hoje o gosto de alguma morte”.
“Fujo hoje nos vãos de toda esperança”.
“que me apresente, me demonstre,
me explique
a mim mesmo”.
3. A temática filosófica, que busca entender a causa primeira e a causa última,
“… me demonstre,
me explique
a mim mesmo”,
se desdobra na visão bíblica do ciclo da vida após a morte,
“em sangue, em terra, em pó”,
o sangue que, esvaindo-se, leva com ele a vida,
a terra que recebe o corpo,
o pó em que nos transformamos (tu és pó, e a ele retornarás)
4. No início, o poeta diz sentir saudades
“de algum tempo,
de alguma rua”.
Finaliza afirmando que não vê além das ruas, por ser pequeno, mas se alimenta do grande tempo, absoluto – a eternidade -, por ser tão grande. Mais que isso, pluraliza a eternidade, como se ela, por si só, singularmente manifestada, não fosse suficiente para alimentar suas dúvidas.
5. Solicito restituir para meu arquivo particular.
Tagore,
19 JAN 88
Tendo aqui recordado o saudoso amigo Tagore, envio a todos o meu abraço afetuoso,
Lucimar.
Natal, 11 de fevereiro de 2016.