Por falar em redondilha, segue uma que escrevi, respondendo a desafio do meu amigo Daltro Ollveira, do grupo dos Poenautas. Ele remetera a fotografia de uma jovem mulher, natural de Santana (AP), cuja história de vida se assemelha à de muitas outras jovens, por esse Brasil afora.
Transcrevo a redondilha, ilustrada por outra fotografia, desta vez da própria Santana, uma bela e orgulhosa cidade do Estado do Amapá.
A Morena de Santana
A morena de Santana
saiu de casa bem cedo:
na velha estrada da cana
já sentia muito medo.
Pois foi só, sem mais aquela,
não conseguiu companhia,
não puderam ir com ela
sequer a mãe ou a tia.
Ela pensava e pensava
como seria esse dia,
se de tarde regressava
ou se ficava e dormia.
Mas o perigo era imenso
e a menina, coitadinha,
julgava ser contrassenso
ter de ficar, tão sozinha.
Perigo, mesmo de dia,
de encontrar algum ladrão,
e o que mais ela temia
era dormir na pensão.
Porque de noite, lá dentro,
depois que o sol ia embora,
começava um movimento
de chegar gente de fora.
Era um tal de chegar homem,
desconhecido e qualquer,
com jeito de quem tem fome
e procurando mulher.
Ela, afinal, muito nova,
menina-moça donzela,
ia encontrar sua cova
numa casa como aquela.
A morena sem maldade
queria apenas comprar
um vestido na cidade
para depois retornar.
Mas foi ficando, cachopa,
a tarde passando em vão,
ela nas bancas de roupa
sem encontrar um chitão.
Quando viu, de tão perdida,
já não tinha solução:
e foi procurar dormida
na perigosa pensão.
Lá chegando, sem mais jeito,
morena, simples e bela,
bateu no portal estreito,
veio a dona pra janela.
“Pode entrar, menina linda”,
disse a matrona enfeitada,
“pra dormir tem cama ainda,
é barato, um quase-nada!”
Bem que eu queria contar
o fim dessa história triste,
mas prefiro me calar,
que vergonha ainda existe.
Eu, que tenho os sonhos meus
feitos de dó e de crença,
mesmo jurando por Deus
talvez nunca lhe convença:
Que a morena desde quando
achou lugar na pensão,
foi ficando, foi ficando
e de lá não sai mais não.
Lucimar.
Natal, 8 de abril de 2016.
O poema foi escrito em 2008. E a imagem copiada da Internet, emhttp://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1549731
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