Desde que me entendo de gente, como dizia minha avó, escrevo, principalmente poesia. Mas apenas de um tempo para cá, não sei precisamente por que razão, passei a produzir sonetos. Na verdade, os primeiros, ainda com a Hildette, minha primeira amada esposa, viva, embora bastante enferma.
Depois que ela partiu, continuei nessa linha. Um dos que me lembro mais fortemente retrata a saudade que ela deixou em mim e eu o escrevi depois de receber um PowerPoint com música clássica e imagens de um dia de chuva. Aí vai:
Chuva fria
Já faz um tempo que essa chuva fria
Enche-me o coração enamorado
De insólita lembrança do passado,
Saudade, enfim, da tua companhia.
E vejo, pelas frestas da agonia,
Rua molhada, o amor de braço dado,
Casal feliz andando lado a lado,
E o espectro de luz que o denuncia.
Guarda-chuvas desfeitos pelo vento,
Crianças em vidraças, folhas nuas,
Toldam-me a alma em dor, neste momento.
E, como já partiste há muitas luas,
Saio então, mundo afora, passo lento,
A procurar-te, louco, pelas ruas.
Lucimar.
Natal, 1 de junho de 2016.
