Lembranças de menino 1
Ficava pensando nas moças
tomando banho no açude
e não me incomodava
que a água da moringa viesse de lá.
O gosto da água fresca acendia minha imaginação.
Mas quando recordava que os bodes
subiam nas pedras da margem
e jogavam bolinhas pretas dentro d’água
ficava um pouco preocupado.
Terminava concedendo que elas caíssem no fundo
e não se misturassem com a massa líquida.
A preocupação aumentou no dia em que ouvi
(será que ouvi mesmo
ou foi história contada na rede,
na tocaia da noite?)
um diálogo sugestivo, de mãe e filha:
Vá tumá bãim, essa menina!
Carece não, mãinha. Já tumei sabo trasado!
Sábado atrasado.
Não posso crer que aquela moça,
na flor dos sonhos,
ficasse tanto tempo sem asseio.
Era uma flor de deserto,
de mandacaru ou xiquexique,
em todo caso flor.
Tinha sua beleza.
Mas tão efêmera como um cair de tarde,
um crepúsculo,
que chega sorrateiro e passa, depressinha.
Beleza que se desprendia logo,
de um dia para o outro,
como essas flores de sezão,
de tempo certo.
Lavando roupa na beira do açude,
queimando as costas na lavoura,
carregando menino.
Lucimar.
Natal, 22 de junho de 2016.
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