Faço hoje uma releitura de um poema de paixão, que me é muito caro. Esse poema foi a minha parte na excelente composição de Roberto Lima de Souza, meu amigo, que acaba de ser gravada em CD, aqui em Natal, RN, junto a muitas outras criações do grande compositor, poeta, músico e, a partir de hoje, Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.
Mas eu quis fazer agora uma releitura radical. Pensando cada frase, cada verso, cada estrofe, como se fosse um poema e, no conjunto, criando a grande emoção de ter sido um homem do mar.
Trabalhei os versos, que ficaram soltos, sem pontuação, para serem também recriados por cada leitor, particularmente aqueles que já viveram no mar, mas também aqueles que têm a alma marinheira, que viaja, que voa, que sente, que ama a poesia.
Aí vai, portanto, este novo pássaro, querendo fazer ninho em seu coração, meu amigo ou minha amiga.
Conveses rotos
voltei de tempestades
cheguei de travessias
vim do oceano
do mar-alto
dos abismos
tenho o corpo ferido em vento e mar
a alma em fúria
o coração em fogo
o peito em dor
marinheiro andante de rotas e derrotas
trago as histórias que vivi de portos e mulheres
eu menino travesso
eu adolescente triste
eu homem desesperado
meus pés têm o lanho de conveses rotos
em navios sem rumo pelos mares da vida
e minhas mãos as marcas de pesadas enxárcias
cabos trançados
espringues e lançantes
voltei de longe
de horizontes e ventos
de madrugadas lentas e manhãs ardentes
e muitas horas de vigília em mastros oscilantes
de noites negras em céu multiestrelado
de plêiades e estrelas solitárias
constelações e galáxias
vim de dunas
de alísios
de praias brancas imensas
litorais ao longe
oceano infinito
vim de noites sem dormir em mar encapelado
navios como nozes jogados entre ondas
naufrágios e balsas
nenhum cais
nenhum porto
e chego aqui em tua casa
em teu porto
em teu cais
e chego coração
alma
peito aberto
na busca do repouso de uma tarde assim,
em brisa mansa e tépido convívio
para saber tua presença
teu silêncio
teu vulto de mulher que me enternece
e encanta
