Amigos:
Dentro de alguns dias estarei de volta ao Rio de Janeiro. Morei em Natal nos últimos cinco anos e dois meses, mas, contando as outras quatro ocasiões em que aqui fixei residência, tenho um total de 20 anos e sete meses em solo natalense.
Desta última vez, convivi com muitas pessoas de alto nível intelectual, artístico e científico, seja no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte ou na União Brasileira de Escritores, setor RN, seja em outros campos de estudo e atividade. Entre tantos amigos, quero destacar o monsenhor Pedro Ferreira da Costa, presbítero, celebrante da missa matinal nos dias de semana na Igreja de Nossa Senhora do Monte Líbano, em Lagoa Nova, excepcional maestro, homem de grande sabedoria.
Hoje pela manhã, ao celebrar, o monsenhor referiu-se em homilia a um seu antigo professor de Ética Ontológica, na Universidade Gregoriana, em Roma, que possuía um elevado talento para orientar seus alunos em assuntos metafísicos. Contudo, ele próprio, o meu amigo destes novos tempos, é também portador de talento semelhante.
Pouco antes da missa, eu lhe mostrara um soneto meu, escrito anos atrás, versando sobre tema bíblico. Imediatamente, ele debruçou-se sobre o poema e apontou três palavras que lhe chamaram a atenção, as quais mereceriam algum tipo de análise e eventual correção. Eis o soneto, como lhe foi apresentado:
Grão de mostarda
“O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce é a maior das hortaliças e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos” (Mateus 13, 31-32).
Eis o grão de mostarda, a pequena semente,
Entre todas que planta o audaz lavrador.
É talvez a menor, a de menos valor,
Jogada pelo chão, em gesto displicente.
Todavia, se morre, na terra inclemente,
O grão se faz arbusto, ao vencer o calor
Na busca do alimento nobre e salvador
Que lhe dá, generosa, a seiva persistente.
E o arbusto se torna uma grande hortaliça,
Onde as aves do céu vêm construir seus ninhos,
Microcosmos de amor, esperança e justiça…
Este é o Reino de Deus, com seus belos caminhos
Que Jesus, Redentor, nos ofertou na Missa,
Palavra, que jamais nos deixará sozinhos…
Três palavras chamaram-lhe a atenção: “ofertou”, no penúltimo verso, “belos”, no antepenúltimo, e “displicente”, no quarto verso. Passamos então a discuti-las. Começando pelo fim, o teólogo defendia que, sendo a Missa ocasião da presença real de Jesus, o verbo no passado reduziria esse magno acontecimento e logo concordamos que seria melhor usá-lo no presente, isto é, substituir “ofertou” por “oferta”. Há uma mudança de sílaba tônica, mas não da métrica do verso.
A segunda alteração, do adjetivo “belos” por “novos”, faria justiça ao fato de que os caminhos do Mestre, ele mesmo “o Caminho, a Verdade e a Vida”, ficariam mais bem descritos como “novos” e não por sua “beleza”, até porque esses caminhos são muitas vezes árduos e penosos. Não tivemos tempo de encontrar outra qualificação para o gesto do lavrador ao jogar a semente. Eu, por mim, mantenho o “displicente”, não pela rima, mas pela gratuidade desatenta que muitas vezes nos acompanha, na rotina do trabalho de cada dia.
Assim, retranscrevo o soneto, agora incorporando as duas correções que meu estimado amigo monsenhor Pedro propôs:
Eis o grão de mostarda, a pequena semente,
Entre todas que planta o audaz lavrador.
É talvez a menor, a de menos valor,
Jogada pelo chão, em gesto displicente.
Todavia, se morre, na terra inclemente,
O grão se faz arbusto, ao vencer o calor
Na busca do alimento nobre e salvador
Que lhe dá, generosa, a seiva persistente.
E o arbusto se torna uma grande hortaliça,
Onde as aves do céu vêm construir seus ninhos,
Microcosmos de amor, esperança e justiça…
Este é o Reino de Deus, com seus novos caminhos
Que Jesus, Redentor, nos oferta na Missa,
Palavra, que jamais nos deixará sozinhos…
Lucimar Luciano de Oliveira
Natal, 6 de dezembro de 2018.
