Despedida de Natal

Amigos e amigas:

Estou em dias de despedida desta cidade, Natal. Desta vez, aqui morei desde outubro de 2013, isto é, cinco anos e dois meses. Fiz novos amigos, construí novos sonhos, elaborei novos projetos. Mas é tempo de voltar ao ninho. Ao meu Rio de Janeiro, ao meu apartamento da Tijuca, às reuniões com meus colegas de turma na Marinha, à convivência diária com meus filhos e netos.

Novos e antigos caminhos serão percorridos.

Natal na alma. Natal cidade, Natal do Cristo.

Para inspirar estes novos desenhos de vida, deixo abaixo dois poemas de Natal, para amigos e amigas que cultivo nesta Terra, irmãos e irmãs de alma, companheiros de estrada.

Poema de Natal 1

No silêncio da meia-noite
os homens cansados chegam,
eles vêm de longe.
Sentam-se no chão,
entre burros e bois,
carneiros e cães.
Nada falam, apenas contemplam
a jovem mulher envolta em panos,
o homem de barbas negras e cajado forte
e o menino.
Não saberiam precisar se há frio
ali dentro. A estrebaria se aquece
no frêmito das palhas.
Há quanto tempo chegaram?
Não sabem. É como se estivessem ali,
suspensos, aquecidos
e quase adormecem
no embalo de melodias sutilíssimas:
“Gloria in excelsis Deo…”
Haverá noite lá fora? Tudo parece tão claro
e simples, tão verdadeiramente
simples e pequeno: seus rebanhos,
humildes cabeças agora pacificadas e quietas,
aquela gente que vela sobre o recém-nascido,
e as vozes tão harmoniosas – seriam anjos?
– entoando cânticos na noite.

As estradas da Galileia são desertas,
mas em breve muitos passos hão de percorrê-las.
As hospedarias de Belém fecharam suas portas,
mas não tardará o vento forte que há de abri-las todas de par em par.
Os homens dormem.
Somente os pastores da noite reconhecem entre os animais
aquele menino,
único, sobre a manjedoura.

Os magos demoram,
em suas caravanas: ouro, incenso e mirra nas mãos,
eles perguntam aos poderosos
onde está o Rei que há de chegar.

Todos pensam que será um rei como os outros,
de coroa e cetro,
de poder e glória.

E, no entanto, Ele está,
tão menino,
tão nu,
sobre a palha
seca.

Ele, nesta noite que vem
de muito longe, do fundo
dos tempos, milagrosa
e fecunda.

Poema de Natal 2

E, no entanto, eu estou aqui
neste teu Natal. Desperto os olhos
na penumbra de tua casa tão pobre,
entre pastores e animais.
Vejo-te pequenino entre nós, vejo-te
ainda sem nome e desconhecido
e, porém, já és rei:
a realeza sem palavras, sem pompas, sem barulho.
Realeza como a do mar em seu silêncio,
realeza como a do trigo ao vento das tardes,
como a da manhã selvagem dentro da mata virgem.

Vejo-te, pequenino, olhos ainda mornos
do sono das entranhas maternas,
planta mal nascida ainda, tonta, úmida, lívida, tímida.
E, porém, já és rei.
Meus olhos buscam ver-te,
descobrir-te entre palhas, pequenino,
mergulhar nesse mistério doce e inexplicável.
Ali estás, entre Maria e José:
Magnificat anima mea Dominum…
Ali estás, peregrino, e já conténs o mundo em teu coração,
e já feriste de morte a serpente.
Sinto nas minhas as rudes mãos dos pastores,
nesse encontro em torno do teu berço,
como do teu altar.

Aqui estamos todos nós, os aflitos,
os cansados, os tristes,
os desesperados.
Aqui estamos de mãos dadas,
ombro a ombro,
juntos,
prostitutas e ladrões,
leprosos, cegos e coxos,
surdos e mudos.
Somos essa grande família humana
que ao teu gesto há de curar-se:
Domine, non sum dignus…
Somos os filhos de Adão, que acreditávamos
na ciência do bem e do mal,
e hoje aqui estamos universalmente reunidos
para prestar-te o simples culto
de nossa disponibilidade.

A ti, menino, que nasceste,
coração de Deus na terra dos homens,
nesta noite sem igual.

Natal, RN, 14 de dezembro de 2018.
Lucimar Luciano de Oliveira

A imagem pode conter: 2 pessoas
A imagem pode conter: 1 pessoa

Publicado por frater12014

Busco aprimorar minha poesia. Faço atualmente a releitura do meu último livro, "Mar em Mim", corrigindo alguns versos de poemas recentes.

Deixe um comentário